Laos – Vietnã: Uma Fronteira de Aventuras

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Sam Neau_2A vida na estrada é cheia de novidades, sempre! E, claro, não poderia ser diferente ao falarmos sobre cruzar fronteiras, principalmente na baixa estação e ainda mais em um um pais ainda remoto como Laos.

Meu plano inicial era: Luang Prabang (L) – Vientiane (L) – Hanói (V).

Plano foi alterado já em percurso para: Luang Prabang (L) – Nong Khiaw (L) – Muang Ngoi (L) – Muang Khuai (L) – Dien Bien Phu (V).

Mas o que realmente aconteceu foi: Luang Prabang (L) – Nong Khiaw (L) – Sam Neau (L) – Hanói (V).

Por uma profusão de eventos tudo se misturou nesse percurso. Quando tentei sair de Muang Ngoi para Muang Khuai descobri que não haviam pessoas suficientes para o barco nos levar até lá (sim, a única opção é essa), então tinha uma escolha imediata a fazer: ficar e esperar que mais pessoas se juntassem para subir o rio (sem garantia, pois estavamos na baixa temporada) ou voltar para Nong Khiaw e essa foi a minha opção. Dali teria que pegar um ônibus até Oudomxay e de lá outro ônibus para Muang Khuai (também sem confirmação). Quando estava na estação encontrei com outros viajantes que me disseram sobre a fronteira via Sam Neau de onde era possível ir até uma cidade construída em uma caverna usada durante a guerra EUA x Vietnã.

Sam Neau_3Naquele momento achei brilhante a solução, pois com certeza chegaria na cidade, pois o ônibus iria sair da estação de Nong Khiaw em cerca de 90 minutos e ainda teria algo pra fazer até cruzar a fronteira. Troquei meu ticket duvidoso para Oudomxay e embarquei com alegria e coragem no pequeno e bem envelhecido mini ônibus local que faria o percurso de 10 horas até Sam Neau.

Bancos soltos, estreitíssimos, muitas caixas, animais e todo tipo de mantimento são levados nesses transportes, pois são os únicos meios de acesso entre as pequenas vilas que constituem a vida em Laos. As estradas são super estreitas, esburacadas e completamente cheias de curvas, já que o percurso é feito na cadeia de montanhas e tudo isso é acompanhado de um fundo musical regional bem alto, então esqueça usar seus fones de ouvido, a música no mini ônibus sempre será mais alta.

Tudo isso nos delicia com uma paisagem espetacular, principalmente quando atingimos o topo de cada uma das montanhas do percurso. A vontade é de gritar ao motorista para parar e assim podermos admirar a vista única, mas não é possível e embora a vista seja realmente única você precisa ter uma estomago forte, porque a quantidade de curvas torna tudo complicado, então ver os locais passarem mal em uma sacolinha plástica (que é lançada pela janela) é comum. Posso dizer que fiquei bastante feliz comigo, porque desde pequena sempre tive muita tontura e enjoo durante percursos bem mais simples que esse e dessa vez sobrevivi bravamente ao trajeto sinuoso, sem paradas oficiais para banheiro (sim, tinha a parada para o matinho e cigarro do motorista) e quase que completamente em jejum (pode ter sido essa a salvação da pátria), cheguei no destino final sem usar a sacolinha (embora com o cérebro remexido).

2015-07-01 04.51.14

Quase as 22h cheguei em Sam Neau, que para meu desespero não aparecia no mapa, então não sabia dizer se estavam me deixando no lugar correto ou não e a vida em Laos se encerra as 21h. A partir desse horário não há mais nada aberto, então eu não tinha taxi e tudo ao redor da estação de ônibus estava fechado, completamente deserto. Tive que confiar que ali era o local correto e desci com a minha mochilona, já com a coragem inicial bem reduzida. Avistei uma hospedaria do outro lado da rua, mas claro que quando cheguei lá estava fechada (recepção 24h?? nãoooo….) e as únicas duas opções que tinha eram dormir na estação ou embarcar na única moto que estava ali para me levar sabe-se lá onde, porque para piorar estava sem internet e não conseguia achar hotéis na região. Resolvi arriscar e paguei a moto para me levar em algum hotel.

Por sorte consegui um com internet (bem mais caro que em qualquer outra cidade que estive) e quando já estava no quarto a saga continuou, não me achava no mapa, era como se eu estivesse no meio do nada e no dia seguinte descobri que era bem isso mesmo. Sam Neau não tem nada! Em todos os aplicativos que entrava não consegui achar uma opção nem mesmo de restaurante. Resolvi andar pelo local e era verdade, nada… Achei um único e bem pequeno (e caro) restaurante na esquina hotel e foi onde pude encontrar algo para comer nos dois dias que fiquei ali. No dia de cruzar a fronteira o ônibus parou em um ponto onde havia um outro restaurante um pouco maior, mas a higiene local não incentivava tentar a gastronomia do local.Sam Neau_1

Nem mesmo a tal cidade na caverna consegui achar e só descobri que era em uma cidade vizinha chamada Viangxay um dia antes de embarcar e assim já era tarde para empreender a aventura de poucos kilometros para achar o local e foi a sorte, porque no dia de embarcar para Hanói encontrei com um casal que havia tentado e de tantos atrasos e desencontros tiveram que pedir carona para voltar a Sam Neua, caso contrário ficariam na rua.

O ônibus para Hanói não diferiu muito dos anteriores, com exceção de que não era uma mini van, mas sim um ônibus mesmo. Lotado de pessoas, caixas, mantimentos (o mesmo cenário anterior) e com uma novidade: a buzina… sim! Ali descobri uma nova faceta asiática. A buzina quando acionada ecoava por 3 vezes e era usada para tudo: ultrapassar, avisar as vilas que o ônibus estava chegando, para passar por alguma pessoa ou motocicleta ou só porque talvez estivesse mesmo silêncio… rsrs. De inicio achei que estava quebrada, mas em Hanói vi que ela é assim mesmo: uma buzina, 3 toques em diferentes tons são emitidos! Incrível!

Sam Neau

Com o calor intenso, a lotação do ônibus, a estrada em construção (que nos obrigava a parar até que terminassem aquele trecho), o pó excessivo que dificultava a respiração, a chuva que caiu, mas sem poder fechar as janelas porque se fechássemos todos ali morreriam cozidos, a música alta e as muitas paradas tudo isso junto numa jornada de umas 12h me levaram a alguns momentos a achar que iria enlouquecer e minha vontade era me jogar pela janela… rsrs, mas resiliencia é sempre a chave, afinal a cada minuto sabemos que mais curta a jornada fica. Não vou comentar as condições de higiene dos locais para comer ao cruzarmos a fronteira, mas era realmente arriscar alto a aventura gastronômica ali – o jeito foi comer arroz e água.

Depois de mais algumas poucas horas, acho que umas 2h o ônibus que estava parou me fez com que eu e o casal da estação de Sam Neuau descêssemos. De inicio tive aquela sensação de “e agora?!?!”, mas quando vi estávamos embarcando em um ônibus leito que nos levaria até Hanói.

Fim melhor não poderia haver!

Stela

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