Violência Doméstica: Por Que Ela Fica?

Os gritos eram constantes, toda semana eu a ouvia gritar, a ouvia apanhar e por anos a fio aquilo se estendeu e meu medo de que algo assim acontecesse comigo se instalou lá no fundo da minha alma.

Minha vizinha era vítima da violência doméstica, apanhava do marido alcoólatra, seus filhos apanhavam junto, mas ela era o grande alvo e a pergunta era “por que ela não vai embora?” e por vezes até comentários terríveis como “Fica porque gosta de apanhar. Mulher de malandro!”, machismo como grande imperador que nos faz perder a humanidade, nos faz julgar sem entender o real problema, porque quando não estamos na pele do outro, tudo parece muito simples de ser resolvido.

violencia contra mulher mosaico natural

Por trás da violência, não apenas a doméstica, mas contra a mulher em geral existem tantas variáveis que falar sobre todas elas acaba sendo quase tema de livro (na verdade é), então hoje vou apenas escrever sobre um dos tópicos colocados pela escritora Leslie Morgan Steiner no vídeo abaixo que é o sentimento de “tábua de salvação” que leva as mulheres a assumirem relacionamentos desequilibrados e a permanecer em situações de violência.

Essa que não precisa necessariamente ser física para existir, pois temos a violência psicológica que drena suas crenças em si própria, te faz acreditar que tudo o que faz e o que sente não passam de bobagem, aquela que faz desmerecer a expressão dos seus sentimentos e te coloca como louca descontrolada por sentir dor. Te faz abrir mão da sua natureza, da beleza, do seu feminino pra atingir um ideal masculino aceito pela sociedade. A violência também vem transvestida de “mau agradecimento”, afinal você tem um homem ali a seu lado, como pode você vendo o quanto ele é fiel e bondoso, não aceitar que ele “escorregue” de vez em quando? “Você quer o homem perfeito? Então vai ficar pra sempre sozinha!”

E essa crença de que “temos que” aceitar toda e qualquer falha do outro e permanecer ao seu lado para “mostrar” que há valores diferentes, que é possível ter uma vida equilibrada, que é possível ser feliz sem subjugar é o que faz seguir na relação. As mulheres acabam se ancorando em dois pilares, um) assumem o papel de companheira-mãe e tentam “educar”o parceiro; dois) não enxergam seu real valor e assumem que aquilo está bom pra elas, porque é o que merecem e também por terem que demonstrar que construir um relacionamento é isso: viver com o que vier. Aceitam uma “culpa” de que o comportamento delas gerou a reação do outro e que se ela fosse dócil nada daquilo teria acontecido.

 

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Não vou falar aqui sobre o medo de perseguição, medo de sofrer ainda mais quando chegar em casa após denuncia, sobre acreditar que está sozinha e ninguém vai ajudar e mais e mais… A grande questão sobre esse tópico específico é a crença na possibilidade de mudança do comportamento do outro e chegar no momento em que o confrontamento com a realidade de que isso não vai acontecer pode durar anos.

Essa minha vizinha um dia, no meio de uma dessas surras saiu de casa, foi pra casa da mãe, na esquina da mesma rua, largou seus filhos, eram 5 se não me engano. Todos os dias a via na calçada fitando a rua, olhando a casa de longe, talvez na esperança de voltar, talvez esperando ser chamada de volta, talvez esperando encontrar o amor e o acolhimento que a fizeram viver aquilo por tantos anos… nunca aconteceu. As brigas acabaram, os filhos cresceram como foi possível, ele perdeu emprego e caiu na bebida de vez e ela morreu alguns anos depois.

Eu fiquei com aquele período impresso na minha cabeça, tinha horror a aquele homem, medo mesmo, afinal agredir outro ser humano, mais fraco não é coisa de gente que está sã… era o que pensava e um dia logo cedo saindo de casa não me lembro pra onde, o encontrei caído na calçada, doente, bêbado, tonto e desesperado. Ele queria se levantar, mas não tinha forças, as pessoas desviavam o olhar dele e não sei porque ao passar perto dele perguntei se precisava de algo e ele me estendeu a mão pedindo ajuda, o ajudei e quando ficou em pé me abraçou e começou a chorar, me pediu desculpas e aquilo foi tão forte que nem hoje sei dizer o que se abalou em mim.

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Eu o vi como um ser humano e não mais como um monstro, um ser humano também cheio de dores e carências, vazios e sombras que o atormentavam dia a noite. Culpa… Orgulho quebrado, vida jogada na lama das próprias escolhas. Tive compaixão, por ele, por ela, pelos filhos, por tudo o que foi destruído por aqueles anos de violência, não apenas dentro da família, mas ao redor, afinal eu morava na casa ao lado e os efeitos, embora claro, muito menores, também me afetaram e me fizeram construir crenças que levei por muitos anos na vida (se é que ainda não carrego algumas).

A violência tem muitos aspectos, envolve a proteção da vitima, sua re-valorização como ser humano e o olhar para o agressor, mas o grande desafio é “como?”.

Trabalhos de assistência social junto a ONGs e ao governo, educação e principalmente a nutrição de uma base cultural que permeie valores de igualdade… ao olhar essa estrada dá para notar que o jornada é longa! Então, é melhor começar logo 🙂

Consciência é sempre um excelente remédio. Consciência de que está sendo abusada e a consciência de que pode estar no papel de abusador. A partir desse ponto é possível promover uma mudança, afinal só mudamos o que conhecemos.

Ajude a divulgar, procure assistência, estenda sua mão para quem precisa de ajuda e procure ajuda se você também precisa.

 

Grande abraço,

Stela

 

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