Sem Morte Não Há Vida

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A grande desconexão que a humanidade sofre hoje nos modelos da vida contemporânea é a causa não só de muitas doenças físicas, mas também emocionais e essa ruptura se iniciou no momento em que os seres humanos passaram a valorizar mais as coisas materiais do que as que nutrem a alma. Hoje um passeio pela praia ou nas montanhas é algo que se faz quando ‘temos um tempo’ no meio do cotidiano agitado pela rotina de trabalho e da vida social das grandes cidades, mas o fato é que o homem é parte da natureza, é criado das mesmas moléculas e partículas que qualquer árvore, rio, ave, areia e assim por diante. Distanciar-se disso é renegar nosso passado, nossa origem e os ensinamentos que essa imensidão nos traz.

A fenomenologia de Goethe é um desses exemplos eruditos que a vida na sua simplicidade sempre nos deu: observar os ciclos da natureza para entender e aprender as coisas da consciência superior. Talvez o principal marco da observação dessa compreensão seja a morte.

Nossa! Da morte? Que coisa horrível! e a pessoa se retorce como se ela própria fosse morrer naquele instante e ser dolorosamente transportada para uma dimensão de vazio existencial. Não aprendemos a morte como algo sagrado e imprescindível como a benção que verdadeiramente ela é. Vemos em inúmeros exemplos desde a antiguidade, desde grandes alquimistas até hoje no cinema, a história de pessoas que buscam o elixir da vida, como se existir nesse plano fosse a meta única, como se isso fosse um propósito a ser atingido a qualquer custo.

A vida é, então perseguida como sendo o resultado da satisfação única da matéria que traz tantos conceitos distorcidos por si só que dá ganas de chorar um imenso rio, mas a Vida, com esse V maiúsculo mesmo é mais, bem mais que apenas satisfazer o estomago, o sexo e as posses materiais. É essa a Vida que não vive sem a morte. No livro Mulheres que Correm com os Lobos de Clarissa Pinkola Estés há a avaliação arquetípica do conto A Mulher-Esqueleto que conta como um pescador encontra uma ossada nos fundos da baia em que estava pescando e suas agruras com a nova companheira óssea em sua vida, uma leitura linda que nos leva de volta aos caminhos de nos apaixonarmos pelo amor dos relacionamentos amorosos, hoje também tão machucados por essa mesma desconexão com os rumos, ritmos e ciclos da vida. Clarissa fala sobre as mortes dentro de cada fase de um relacionamento amoroso, sem as quais o próprio se finda, pois, não evolui, não amadurece e assim é com tudo em nosso cotidiano.

Basta olharmos um dia, suas 24h. Ali o dia nasce com o sol, começa manso, calmo e o grande astro vai fazendo sua jornada rumo ao pico máximo de sua luminosidade e calor, enquanto isso os seres vivos, cada um de acordo com sua função natural, estão acordando e dando início às suas atividades que seguem essa trajetória solar. Depois desse pico máximo começa o declínio, vem a tarde e o ritmo do dia também se retarda, até o ponto em que o calor e a luz se vão, é a morte do dia que vem acompanhada do nascimento da lua e de todo o mistério e da poesia que esse satélite natural nos presenteia, regente das marés, dos nascimentos e das mortes dos seres. Assim, num simples período de 24h temos todas as Mortes que se fazem necessárias para a renovação da Vida. Os exemplos não param por aí. É preciso morrer a criança para que nasça o adolescente, e esse no seu tempo deverá dar espaço para o nascimento, para a Vida do adulto e posteriormente para sabedoria anciã, cada fase a seu tempo e seu modo. Um jardim é pura Morte e Vida, cada flor que nasce, vive para os insetos, para irradiar beleza e morre para que volte ao solo como alimento das raízes de outras plantas para que esse ciclo seja infinito.

Tudo é perfeição quando estamos de posse da sabedoria que rege a roda cíclica da Vida, a carta dez (X) do tarô, onde 1+0 é 1, é o início, a mudança que nos convida a alterar nossa rota e seguir adiante, mas o problema reside justamente na nossa resistência em mudar. O encerramento de ciclos nos amedronta porque estamos na desconexão e deixamos de sentir a proteção do Poder Maior, como se essa força que governa a todo o Universo com perfeição não estivesse realmente nos enxergando e nos sentimos abandonados e queremos controlar tudo com medo de que a renovação não seja aquilo que almejávamos. Gastamos imensos montantes de energia com medos dos mais diversos: falta de dinheiro, solidão da doença, de não ter um corpo escultural e por essa razão não teremos o amor ou felicidade sonhados, medo da tristeza, da alegria, de ter ou não o que quer que seja e ficamos presos em armadilhas que nós mesmos construímos com esmero de um fino artista, mas cobramos do Universo a mudança que nos fará felizes. Cobramos, mas quando ela vem corremos com medo e é nessas horas que a Vida impõe a Morte, é aí que no esforço da perfeição em nos manter no caminho, somos levados não mais pelo amor, mas pela dor a promover a renovação da trajetória e isso nos machuca, choramos e imploramos por misericórdia porque não suportamos ‘perder’, mas não adianta, aquilo que já cumpriu com seu papel em nossa vida irá embora por mais que façamos birra no chão do supermercado divino.

Alguns ciclos de morte são longos, são diversas ‘pequenas mortes’ (por vezes não tão pequenas) que passamos para um dia chegar à grande morte, aquela que trará a visão, a compreensão de todo o ciclo, do somatório das pequenas mortes que nos rodearam. Quando essa perspectiva nos chega é possível enxergar nos detalhes os dedos delicados no universo nos guiando aqui e ali nas encruzilhadas que passamos. É pura perfeição por isso procure não se demorar nas lutas e manhas com os fatos da vida, mas ao invés disso busque compreender o que a visão superior está tentando te mostrar, qual a lição ou oportunidade a agarrar. Encontre a Verdade Maior por trás da aparência de caos que morte pode trazer para o dia a dia. Sempre há uma oitava superior em tudo. Sempre!

Certa vez estava em uma viagem e passei em frente a um templo budista e um dos monges me convidou a entrar e conhecer o local, o qual, na máxima da minha curiosidade, aceitei. Dentre as muitas histórias da reforma do local, da horta, dos animais que ali viviam, dos aposentos, cantos e orações pude presenciar uma cerimônia funeral e tudo ali me espantou, pois, todos estavam ali velando a pessoa, mas rindo, conversando e comendo alegremente. Ao que me incluíram nesse acontecimento tive a oportunidade de perguntar porque todos estavam tão felizes com a partida de um familiar (será que não gostavam dele? Pensei) e fui elucidada de que a alegria se devia ao fato de que, segundo a visão budista, o período de ilusão e sofrimento daquela pessoa havia acabado, ele havia vencido e estava de volta do lado da verdade. Era meu primeiro contato com essa perspectiva da Morte e Renascimento.

Particularmente não sinto e não vejo a matéria como um mal a ser cortado, suprimido e renegado ao papel de objeto descartável, não enxergo a vida material como sinônimo de sofrimento e somente o espiritual como a verdade ou salvação. Para mim, matéria e espírito são Um, nosso corpo é a casa sagrada que mora nossa alma e é através dele que temos a possibilidade de viver, escolher e aprender, é através desse meio material, criado com tanta perfeição, que a consciência trafega nas experiências de Morte e Renascimento até reencontrar o prazer de perdurar conectado com os ciclos do espirito, ou seja, a constante ciclicidade da Morte e Renascimento nos ensina pacientemente que a Vida não está em apenas satisfazer as necessidades e prazeres da matéria, mas também não reside em abnega-la como se ela não fosse também parte da criação divina. Elas são faces diferentes de uma mesma fonte de crescimento e expansão.

O ser humano que se tornou capaz de enxergar com gratidão cada mudança que a vida traz, encontrou a Vida em qualquer estágio, sem distinção da matéria ou espírito, porque um dia morreremos em um para renascer no outro.

Stela Kiill

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