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O Mimimi do Feminismo

Netflix… sim, foi ali que tudo começou.

A alguns meses atrás, uma amiga me indicou o que seria uma série maravilhosa e lá fui eu, no maior entusiasmo me aventurar na telinha e ver do que se tratava as tais “Aventuras de Merlin”, que a principio se trata de uma releitura da obra de Marion Zimmer Bradley – “As Brumas de Avalon”, com personagens icônicos como Morgana, Guinevere, Morgause, Rei Arthur e Merlin.

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História protagonizada pelas mulheres que demonstra força, coragem, poder pessoal, liderança e sabedoria, regadas a boas doses de magia, fundamentos da religião dos povos antigos da Bretanha, ou dos povos celtas, como são mais conhecidos. Nessa versão em série, os personagens se mantém, ou melhor, seus nomes, porque cada capítulo demonstra uma história completamente diferente da original.

Em Brumas, Merlin é um mago sábio e já de idade muito avançada, no série ele é jovem rapaz que mau sabe de seus dons e como usá-los, mas claro que ao decorrer dos capítulos ele se descobre forte e poderoso, embora seja o serviçal do, então jovem e asbrumasdeavaloninexperiente, Principe Arthur. Pensei… bom, até aqui ok… prefiro a versão original, mas vamos dar uma chance e ver no que dá e deu, como dizem na língua informal #deuruim (pelo menos sob minha ótica), porque as mulheres que eram protagonistas e representantes de um poderio pessoal feminino que se perdeu ao longo do tempo, nessa série se tornaram meras representantes dos estereótipos que consagraram lugares de submissão e aversão às mulheres.

Morgana segue sendo poderosa, mas é transformada em bruxa louca, com direito a madeixas descabeladas, para seguir com o padrão de que mulheres não entendem as decisões masculinas e por isso se comportam de maneira histérica. Guinevere, por sua
vez, é única que assume uma personagem de poder, mas desse ponto em diante, fica praticamente sem falas durante todos os outros capítulos e sempre cercada apenas de homens. Dai irão me dizer, “ah, você está exagerando. Era assim naquele tempo.” Sim, era, mas não na obra original.

E comentei com essa minha amiga essa visão, de que era apenas mais uma obra onde somente o poderio do patriarcado reinava. De verdade, cheguei a me sentir ofendida, pois se eu fosse a autora, essa releitura seria um desaforo, pois fez exatamente o que os livros originais lutaram contra: mantiveram a mulher em submissão, negaram sua capacidade natural de ligação com a natureza e tiraram seu discernimento e poder pessoal. “Ah, Stela, mas é só pra passar o tempo… que chato isso! Tudo tem que virar debate sobre o mimimi do feminismo? Que preguiça…” Foi o que ouvi e desde então, tenho pensado sobre isso.
Estamos em 2017 e as pessoas ainda não compreendem do que se trata o tal feminismo, então só para ser detalhista, vou colocar aqui a definição pela Wikipédia “é um conjunto de movimentos políticos, sociais, ideologias e filosofias que têm como objetivo comum: o mimimi do feminismo mosaico naturaldireitos equânimes (iguais) e uma vivência humana por meio do empoderamento feminino e da libertação de padrões opressores patriarcais, baseados em normas de gênero”. Ou seja, é um trabalho para mudar a cultura da sociedade sobre o engessamento dos papéis dos homens e mulheres na sociedade, por exemplo: tanto a mulher quanto o homem deveriam receber a mesma aceitação (se é que podemos falar em aceitação, pois de fato ninguém tem nada a ver com a vida do outro, mas enfim…) se decidir ficar com o serviços da casa e cuidados com os filhos, mas nitidamente vemos com muita diferença cada gênero na mesma função. Se falarmos em altos cargos em empresas é a mesma coisa, Diretoria de Operações da Multinacional X ser dirigida por um homem ou uma mulher, e não se trata apenas da visão e do julgamento, mas da igualdade de oportunidades para se chegar lá. Os obstáculos que uma mulher enfrenta, assim como negros, gays e por ai vai, são muito maiores. É como se pelo fato de não ser homem e branco, você já nascesse com uma deficiência intelectual.

Por isso não vejo o feminismo como um mimimi, vejo como uma necessidade de libertação para todos, porque todos tem direito de terem as experiências que desejarem em  suas vidas e receberem os créditos e as responsabilidades por isso. Obras escondidas ou atribuídas a homens é uma realidade pra lá de comum quando se fala em mulheres (e outras populações em desvantagem), como retrata, por exemplo, o filme “Estrelas Além do Tempo” de 2017, ou como a cineasta, Alice Guys que tem sua obra atribuída a George Meliès, como é mostrado num filme infanto juvenil chamado “Hugo” de 2012 – isso é apropriação cultural.

 

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O feminismo parece mimimi para quem nunca se atentou a seus efeitos e acha não sofre nenhuma consequência, mas como você se sentiria se o trabalho de sua vida fosse atribuído a outra pessoa? Quantas escritoras, inventoras, cientistas entre outras profissionais não precisaram se esconder atrás de nomes (pseudônimos) masculinos para que seu trabalho tivesse chance  de, pelo menos, ser visto? Sabia que quem inventou a geladeira foi uma mulher?  E tem mais, muito mais e dessas inumeráveis obras, muitos nomes se perderam pra sempre. Aqui abordei apenas um aspecto da divisão gênero, mas é muito mais amplo, entra no âmbito da violência sexual, doméstica, comercio sexual e mídias em geral, discriminação, assédio e a lista vai embora.

Então, não, não é mimimi, é respeito que todo ser humano merece por simplesmente ser um ser humano, independente de gênero, raça, condição social ou sexual, religião e qualquer outra forma de segregação que temos a tamanha mania de criar para que uma parte do nosso ego possa seguir afirmando ser melhor ou mais privilegiada que outra. A famosa divisão Nós x Eles que nunca levou ninguém a nada. E quando essa diferença na divisão se dá entre gêneros, a mudança cultural dessa paradigma, é chamada de Feminismo.

E para concluir, voltemos ao tema da “série só para se divertir”, toda obra indiretamente transmite conceitos à nossa mente que irão moldar nossas crenças, e portanto, nossas escolhas e experiências de vida. Se nutrimos nosso consciente e subconsciente com estereótipos antiquados e limitadores e passarmos a vida submersos nisso, nosso cotidiano apenas irá refletir essa realidade interior e as chances de carregarmos uma frustração consigo próprio é bastante alta. Então, ninguém precisa carregar a bandeira do feminismo, nem deixar de se depilar, mas é necessário entendermos onde as raízes das limitações surgem para que possamos ter respeito por nós próprios e para ensinar quem vem depois a importância de não viver os mesmos erros e crescer pelo positivo da nossa experiência.

Stela

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Violência Doméstica: Por Que Ela Fica?

Os gritos eram constantes, toda semana eu a ouvia gritar, a ouvia apanhar e por anos a fio aquilo se estendeu e meu medo de que algo assim acontecesse comigo se instalou lá no fundo da minha alma.

Minha vizinha era vítima da violência doméstica, apanhava do marido alcoólatra, seus filhos apanhavam junto, mas ela era o grande alvo e a pergunta era “por que ela não vai embora?” e por vezes até comentários terríveis como “Fica porque gosta de apanhar. Mulher de malandro!”, machismo como grande imperador que nos faz perder a humanidade, nos faz julgar sem entender o real problema, porque quando não estamos na pele do outro, tudo parece muito simples de ser resolvido.

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Por trás da violência, não apenas a doméstica, mas contra a mulher em geral existem tantas variáveis que falar sobre todas elas acaba sendo quase tema de livro (na verdade é), então hoje vou apenas escrever sobre um dos tópicos colocados pela escritora Leslie Morgan Steiner no vídeo abaixo que é o sentimento de “tábua de salvação” que leva as mulheres a assumirem relacionamentos desequilibrados e a permanecer em situações de violência.

Essa que não precisa necessariamente ser física para existir, pois temos a violência psicológica que drena suas crenças em si própria, te faz acreditar que tudo o que faz e o que sente não passam de bobagem, aquela que faz desmerecer a expressão dos seus sentimentos e te coloca como louca descontrolada por sentir dor. Te faz abrir mão da sua natureza, da beleza, do seu feminino pra atingir um ideal masculino aceito pela sociedade. A violência também vem transvestida de “mau agradecimento”, afinal você tem um homem ali a seu lado, como pode você vendo o quanto ele é fiel e bondoso, não aceitar que ele “escorregue” de vez em quando? “Você quer o homem perfeito? Então vai ficar pra sempre sozinha!”

E essa crença de que “temos que” aceitar toda e qualquer falha do outro e permanecer ao seu lado para “mostrar” que há valores diferentes, que é possível ter uma vida equilibrada, que é possível ser feliz sem subjugar é o que faz seguir na relação. As mulheres acabam se ancorando em dois pilares, um) assumem o papel de companheira-mãe e tentam “educar”o parceiro; dois) não enxergam seu real valor e assumem que aquilo está bom pra elas, porque é o que merecem e também por terem que demonstrar que construir um relacionamento é isso: viver com o que vier. Aceitam uma “culpa” de que o comportamento delas gerou a reação do outro e que se ela fosse dócil nada daquilo teria acontecido.

 

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Não vou falar aqui sobre o medo de perseguição, medo de sofrer ainda mais quando chegar em casa após denuncia, sobre acreditar que está sozinha e ninguém vai ajudar e mais e mais… A grande questão sobre esse tópico específico é a crença na possibilidade de mudança do comportamento do outro e chegar no momento em que o confrontamento com a realidade de que isso não vai acontecer pode durar anos.

Essa minha vizinha um dia, no meio de uma dessas surras saiu de casa, foi pra casa da mãe, na esquina da mesma rua, largou seus filhos, eram 5 se não me engano. Todos os dias a via na calçada fitando a rua, olhando a casa de longe, talvez na esperança de voltar, talvez esperando ser chamada de volta, talvez esperando encontrar o amor e o acolhimento que a fizeram viver aquilo por tantos anos… nunca aconteceu. As brigas acabaram, os filhos cresceram como foi possível, ele perdeu emprego e caiu na bebida de vez e ela morreu alguns anos depois.

Eu fiquei com aquele período impresso na minha cabeça, tinha horror a aquele homem, medo mesmo, afinal agredir outro ser humano, mais fraco não é coisa de gente que está sã… era o que pensava e um dia logo cedo saindo de casa não me lembro pra onde, o encontrei caído na calçada, doente, bêbado, tonto e desesperado. Ele queria se levantar, mas não tinha forças, as pessoas desviavam o olhar dele e não sei porque ao passar perto dele perguntei se precisava de algo e ele me estendeu a mão pedindo ajuda, o ajudei e quando ficou em pé me abraçou e começou a chorar, me pediu desculpas e aquilo foi tão forte que nem hoje sei dizer o que se abalou em mim.

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Eu o vi como um ser humano e não mais como um monstro, um ser humano também cheio de dores e carências, vazios e sombras que o atormentavam dia a noite. Culpa… Orgulho quebrado, vida jogada na lama das próprias escolhas. Tive compaixão, por ele, por ela, pelos filhos, por tudo o que foi destruído por aqueles anos de violência, não apenas dentro da família, mas ao redor, afinal eu morava na casa ao lado e os efeitos, embora claro, muito menores, também me afetaram e me fizeram construir crenças que levei por muitos anos na vida (se é que ainda não carrego algumas).

A violência tem muitos aspectos, envolve a proteção da vitima, sua re-valorização como ser humano e o olhar para o agressor, mas o grande desafio é “como?”.

Trabalhos de assistência social junto a ONGs e ao governo, educação e principalmente a nutrição de uma base cultural que permeie valores de igualdade… ao olhar essa estrada dá para notar que o jornada é longa! Então, é melhor começar logo 🙂

Consciência é sempre um excelente remédio. Consciência de que está sendo abusada e a consciência de que pode estar no papel de abusador. A partir desse ponto é possível promover uma mudança, afinal só mudamos o que conhecemos.

Ajude a divulgar, procure assistência, estenda sua mão para quem precisa de ajuda e procure ajuda se você também precisa.

 

Grande abraço,

Stela

 

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